Por que a melhor decisão é deixar a equipe decidir?

Post escrito por: Roberto Simoes

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Categoria: Gestão Ágil

Em uma tarde congelante de dezembro na Abadia de Westminster e sob a presença de dois bispos, 14 arcebispos, um punhado de barões e algumas dezenas de convidados, Henry Fitzempress era coroado rei.

Henry (também conhecido por Henrique II), assumia o poder com desafios imensos. O ano era de 1154 e naquela época a Inglaterra não passava de um amontoado de tribos, que mal conseguiam conviver umas com as outras.

Além disso, o país acabava de sair de uma guerra civil desastrosa, disputada entre o antigo rei, Stephen (Estêvão de Blois) e a mãe de Henry (Matilda), que reclamava o trono para o filho. Com a morte de Stephen em batalha, Henry ascendeu ao trono.

Mas com o fim das contendas, os mercenários contratados pela mãe de Henry e também pelo antigo rei para reforçar seus exércitos, resolveram se estabelecer em terras inglesas.

Como muitos senhores feudais estavam lutando nas cruzadas e, portanto, encontravam-se distantes de suas propriedades, não tardou muito para que os novos moradores começassem a exercitar habilidades que praticavam em tempos de paz: a invasão de terras.

Como as instituições oficiais estavam totalmente desorganizadas e sem contar com um sistema jurídico estabelecido, era muito difícil arbitrar sobre a posse de qualquer coisa. Por conta disso, o caos se instaurou rapidamente em todo o reino.

O governo central, representado pelo trono, não contava com pessoas habilitadas para julgar disputas de propriedade. A única alternativa que restava aos reclamantes era recorrer a igreja.

Só que quando a igreja assumia esse tipo de demanda, os bispos e arcebispos responsáveis pelo julgamento não costumavam prezar muito pela imparcialidade.

Se houvesse dificuldade para identificar o verdadeiro dono, seja por sua ausência, falta de documentação ou pelo fato de não se encontrar testemunhas com coragem para depor contra os invasores, a igreja simplesmente resolvia a questão confiscando a propriedade. Dessa forma seus ativos cresceram exponencialmente por toda a Europa.

Essa situação irritava Henry por dois motivos. Primeiro, porque a maioria das decisões da igreja eram arbitrárias. Segundo, porque os reclamantes que se sentiam injustiçados cobravam uma ação da coroa em seu favor.

Se nenhuma atitude fosse tomada, Henry continuaria vendo seu reino encolher devido às manobras da igreja, sob a qual não tinha autoridade, já que os bispos reportavam diretamente à matriz, em Roma, ou acabaria sendo deposto por insatisfação dos seus súditos. Foi então que ele resolveu inovar.

Já que não era especialista no assunto e tampouco possuía pessoas com essas competências nos quadros reais, Henry decidiu pela criação de juntas de arbitragem, formadas por cidadãos comuns.

Apesar de serem leigos em aspectos jurídicos, os integrantes das juntas eram pessoas da comunidade, respeitadas e isentas, que estavam próximas às questões e fatos envolvendo as disputas e, por esta razão, tinham conhecimento suficiente para tomar decisões mais corretas e justas.

Henry chegou à essa solução, após estudar o modelo jurídico utilizado para tratar crimes na Grécia antiga, que permitia que grupos de cidadãos leigos tomassem decisões baseados em seu conhecimento sobre as ocorrências e também sobre os envolvidos.

A ideia de Henry era fundamentada na crença de que um grupo de pessoas leigas, mas com autonomia e conhecimento necessário para tomar decisões em conjunto, chegaria a resultados melhores do que aqueles obtidos pelo julgamento de um especialista.

Poucos anos depois, a prática introduzida na Inglaterra também seria adotada por vários países em todo o continente.

Mesmo não conhecendo a extensão de sua ideia, Henry tomou uma decisão extraordinária, que criaria as bases para o sistema legal inglês, que evoluiu ao longo dos anos para o modelo de julgamento por Júri, amplamente utilizado nos dias atuais.

Mas até que ponto Henry arriscou seu trono, e também seu pescoço, delegando decisões importantes para grupos de pessoas leigas?

Segundo pesquisas recentes sobre o assunto, ele não se arriscou tanto assim. Na verdade, o que se sabe atualmente é que decisões colegiadas, tomadas por grupos de pessoas comuns, mas com a diversidade de conhecimento necessária para resolver o problema, conseguem tomar decisões melhores do que aquelas adotadas exclusivamente por especialistas.

Isso acontece porque grupos formados com diversidade cognitiva, como as juntas de arbitragem criadas por Henry, conseguem analisar o problema, mesmo os mais complexos, através de uma ampla variedade de pontos de vista, interpretações e formas de solução, o que acaba gerando maior volume de alternativas.

Já grupos formados exclusivamente por especialistas normalmente analisam os problemas através de pontos de vista, interpretações e formas de solução muito similares, o que acaba reduzindo significativamente a quantidade de opções.

É justamente por esta razão que times auto-organizados, formados por pessoas com o conjunto de conhecimentos necessários para resolver problemas específicos (como o desenvolvimento de um novo produto), geram resultados superiores do que aqueles obtidos por equipes tradicionais, formadas unicamente por especialistas.

O segredo do sucesso está na diversidade cognitiva dos componentes da equipe, ou melhor, no “mix” de modelos mentais envolvidos.

Mas historicamente, a confiança na capacidade das equipes não é algo novo, tampouco restrito aos domínios de Henry.

George S. Patton, um dos mais respeitados comandantes das forças americanas na Segunda Guerra Mundial, afirmava que nunca deveríamos dizer às pessoas como fazer as coisas. Ao invés disso, deveríamos dizer o que precisava ser feito e deixar que elas nos surpreendessem com sua genialidade.

É exatamente esse o primeiro passo para o desenvolvimento de equipes de alto desempenho. Confiar na capacidade das pessoas. Todo o restante é consequência.

 

Roberto Simões

18/04/2018

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