O custo de se fazer a qualquer custo.

Post escrito por: Roberto Simoes

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Categoria: Gestão Ágil

Muitas empresas abandonam seus propósitos, valores e princípios, e mergulham inconsequentemente em direção aos seus objetivos de curto prazo. Isso me remete à visão catastrófica de uma betoneira desgovernada descendo a ladeira e destruindo tudo que encontra pelo caminho. Provavelmente chegará ao seu destino, mas à um custo extremamente elevado.

Depois de mais de 30 anos frequentando ambientes corporativos, cansei de testemunhar cenas bizarras (e algumas traumáticas), desempenhadas por quem passei a chamar de “entregadores”.

Você provavelmente conhece ou conheceu algum exemplar da espécie. Normalmente são relacionados a figuras como Batman, Zorro, Super Homem ou qualquer outro personagem do gênero. Também podem ser encontrados em todas altitudes da pirâmide corporativa, atuando como integrantes de equipe, gestores, executivos etc.

São criaturas de visão aguçada, pois conseguem enxergar com enorme precisão o que é necessário para abocanhar aquele bônus suculento no final do trimestre, ou para conquistar a simpatia dos escalões superiores. Para alcançar seus propósitos, são capazes de triturar tudo que cruza seu caminho.

São obstinados, incansáveis, irredutíveis e altamente comprometidos com aquilo que valorizam, ou seja, seus próprios interesses. Não hesitam nem por um segundo em desrespeitar normas, prejudicar pessoas, ignorar valores e princípios e desconsiderar impactos futuros das suas ações, afinal, estão preocupados exclusivamente com ganhos imediatos.

Mas caso encontre dificuldade em identificar esses exemplares na vasta fauna organizacional, seguem algumas dicas que poderão ajuda-lo nesse sentido.

Primeiro, “entregadores” são seres furtivos, por isso não revelam facilmente suas personalidades. São exímios encantadores de plateia. Manipulam, distorcem e apresentam fatos e números da forma mais conveniente. De maneira geral, parecem amigos, caras legais, gente boa de verdade. Só que não.

Segundo, equipes comandadas por “entregadores” apresentam sintomas comuns, como baixo engajamento, desmotivação, individualismo e rotatividade elevada. Isso ocorre devido ao estilo de gestão que utilizam, caracterizado usualmente pelo desrespeito à questões valorizadas pelas pessoas, como participação no processo decisório, cumprimento de prioridades acordadas e manutenção de cargas de trabalho que assegurem qualidade de vida, dentre as mais frequentes.

Terceiro, resultados alcançados por “entregadores” são temporários. Se conseguir avaliar o que realmente acontece em intervalos maiores, irá constatar a recorrência dos problemas, não sua eliminação. Isso acontece devido à outra característica bastante comum nos “entregadores”: a impaciência.

Em geral, preferem soluções simples e rápidas, não aquelas que dependem de análises mais criteriosas ou aprofundadas. Por essa razão não fornecem tempo, tampouco condições adequadas, para que suas equipes consigam chegar à causa-raiz e eliminar os problemas definitivamente. Dessa forma, conseguem no máximo atacar as consequências, deixando o fato gerador adormecido, esperando apenas o melhor momento para manifestar-se novamente.

Em resumo, “entregadores” fazem o que tem que fazer, entregam o número, batem as metas. Mas alcançam resultados à um custo extremamente elevado, que só será conhecido em sua totalidade algum tempo depois.

O que muitos executivos ainda não perceberam é que essa forma de “entregar” pode até produzir ganhos rápidos, mas a médio e longo prazos, reduzem gradativamente a capacidade da empresa em continuar alcançando resultados, pelo menos de forma sustentável.

Na verdade, não estão progredindo, mas apenas dourando a pílula e colocando um monte de esqueletos no armário. O problema é que não conseguem mantê-los confinados indefinidamente. Um dia, quando menos esperarem, começarão a encontra-los vagando pelos corredores. Daí em diante, serão aterrorizados permanentemente.

Acho que carreguei demais no clima sombrio? Pode estar certo que não. Isso ainda não é pior. Sabe o que acontece quando as empresas descobrem que atingiram esse estágio avançado de entropia? Tentam resolver tudo do mesmo jeito, recorrendo às habilidades de seus “entregadores”. Dessa maneira, realimentam o ciclo danoso que fez com que chegassem à essa situação.

Mas o efeito mais perverso dessa continuidade insana, é a sobrevida que proporciona à uma espécie que, para o bem da empresa e de todos que fazem parte dela, já deveria ter sido extinta há muito tempo.

Bem, não quero encerrar por aqui, deixando um sentimento negativo no ar. Até filme catástrofe termina com uma mensagem positiva, que remete à reconstrução, paz e prosperidade. Então vamos lá.

Não é o que fazemos que importa ou que nos diferencia dos outros. O que realmente importa e que nos diferencia dos outros é como fazemos o que fazemos.

Pode acreditar, estamos caminhando nessa direção. Pode demorar um pouco mais ou um pouco menos, mas estamos avançando, felizmente.

Movimentos como Lean, Agile, Design Thinking e Conscious Business, estão resgatando a importância do ser humano no contexto corporativo e indo além, abrangendo inclusive os efeitos da forma de atuação das empresas no meio ambiente, comunidades, nações etc. Exatamente por isso, resultados não podem ser vinculados exclusivamente a ganhos financeiros. Quando esse é o único propósito, sabemos que coisas ruins irão acontecer, inevitavelmente.

O mundo está cada vez mais incerto e dinâmico. É um cenário que impõe desafios gigantescos para todas as empresas, uma vez que precisam aprender a sobreviver e prosperar em contextos nunca enfrentados anteriormente.

Mesmo assim, não podemos nos valer dessas circunstâncias, tampouco dos objetivos e metas que temos que alcançar, para abandonar nossos propósitos, princípios e valores mais importantes, tanto do ponto de vista corporativo como pessoal.

Quando lidamos com incerteza e instabilidade constantes, os propósitos, valores e princípios tornam-se nossa maior fonte de coerência, orientação e crescimento sustentável. Se abandonamos nossas referências, perdemos nossa capacidade de fazer diferença de verdade. Seremos apenas “entregadores”.

 

Roberto Simões

10/04/2018

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